"Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre". - Ap 5,13  
 

A MISSÃO DO PAPA NA HISTÓRIA

Papa: palavra grega que significa pai

A Igreja de Roma desfruta, desde as origens, de um prestígio particular porque foi fundada pelos apóstolos Pedro e Paulo, que testemunharam a sua fé pelo martírio e aí foram sepultados. É a única Igreja do Ocidente fundada por um apóstolo. Os bispos de Roma (como Clemente, 90-100), em defesa da fé e da unidade, exercem uma precedência reconhecida por Inácio de Antioquia e Ireneu de Lião. Roma surge como a sede de uma tradição privilegiada.

Nos séculos III e IV, a Sé de Roma desempenha um papel ativo na comunhão das igrejas para estabelecer o consenso nas questões de fé e de disciplina, e para a manutenção da unidade entre uma federação de Igrejas episcopais espalhadas por um Império que se tomou cristão no século IV. Confere confirmação ou garantia às decisões do Concílio Ecumênico reunido pelo imperador.

O papel de direção do bispo de Roma acentua-se durante a segunda metade do século IV e no século V no Ocidente. O título de papa foi dado nos séculos III e IV aos bispos e abades como sinal de veneração. Vem do Oriente, onde designava primeiramente o Patriarca de Alexandria, antes de se atribuir a todos os padres designados ainda com o nome de popes. Este título é utilizado pela primeira vez pelo Papa Libério (352-366) e passa a ser reservado ao bispo de Roma a partir do século V.

Com Dâmaso e o Concilio Romano de 382, surge a idéia de que a Igreja de Roma tem a precedência sobre as outras Igrejas e que é a única "Sé apostólica". Com Leão Magno (440-461), o papa não se apresenta somente como primeiro (primaz), mas como detentor da soberania (principado) sobre os outros bispos. O papa, sucessor de Pedro, pretende legislar para todas as Igrejas do Ocidente como se, direta ou indiretamente, elas tivessem sido fundadas por Pedro ou pelos seus sucessores. Depois das grandes invasões, da aniquilação do Império do Ocidente, do domínio de Odoacro e dos Ostrogodos, Roma fica dependente do Império do Oriente com a reconquista de Justiniano, a partir de 536 e até meados do século VIII. O papa, eleito pelo clero e pelo povo romano, tem de receber a confirmação da sua eleição do imperador de Constantinopla antes da ordenação episcopal. Além disso, depois do Concilio de Caledônia (451), a preeminência de Roma fica ameaçada pelo célebre cânone 28, que baseia o primado, não na fundação apostólica, mas na autoridade política da capital. E Gregório Magno (590-604), apesar de sujeito a Bizâncio, protesta contra o patriarca de Constantinopla, que se intitula ecumênico, isto é, universal.

O mesmo Gregório Magno esforça-se por restaurar a autoridade da Santa Sé sobre um Ocidente dividido entre monarquias bárbaras. Este movimento de evangelização do Oeste terá a sua conclusão por meados do século VIII quando Roma, isolada do mundo mediterrâneo pelo Islão, ela própria ameaçada pelos Lombardos, vai encontrar aliados eficazes na pessoa de Pepino, o Breve, e aos Carolíngios. O papa receberá a posse dos territórios que administrava em nome de Bizâncio: é a origem dos Estados Pontifícios (756). Este poder temporal do papa torna-se um atributo aparentemente inalienável do papado.

Durante o desmembramento do Império Carolíngio, o papado conserva o prestígio alcançado, afastando-se simultaneamente do Oriente. Vítima por sua vez, no século X, do quebrar das estruturas, tendo caído nas mãos das grandes famílias romanas, reage, a partir de meados do século XI, para se libertar e se dedicar à restauração da dignidade do clero. É a reforma gregoriana que marca uma etapa decisiva na evolução da centralização romana: o papado afirma a sua autoridade sobre todo o clero e reivindica o direito de depor os soberanos. Reúne concílios gerais. Lança as Cruzadas, que, em 1204, consumarão a ruptura com o Oriente, iniciada em 1054.

De 1050 a meados do século XIII, o papado, sobretudo com Alexandre III (1159-1181), Inocêncio III (1198-1216), Gregório IX (1227-1241), Inocêncio IV (1243-1254), faz com que a Igreja romana surja, aos olhos do Ocidente, como uma monarquia. O papa é juiz soberano no campo eclesiástico e religioso. Controla o ensino, colocando as universidades sob a sua proteção; dirige a luta contra os heréticos através da Inquisição; lança mão dos serviços das ordens mendicantes.
A obrigação de defender os seus Estados arrasta o papado para lutas políticas, sobretudo com a finalidade de travar a ambição dos imperadores germânicos: Frederico Barba-Ruiva e Frederico II, em particular. Esta luta entre o Sacerdócio e o Império é justificada, no entender dos papas, pelo direito de intervirem contra os Estados em caso de pecado grave ou de urgente necessidade.

Mas o papado enreda-se nos assuntos italianos e não avalia as evoluções em curso. O violento conflito que opõe Bonifácio VIII (1294-1303) a Filipe, o Belo, arrasta consigo um longo período de dificuldades para a Santa Sé: instalação do papado em Avinhão (1305-1378) a partir da eleição de Clemente V, o grande Cisma do Ocidente (1378-1417) depois do regresso de Gregório XI a Roma. Se o Concílio de Constança (1414-1418) consegue pôr fim ao cisma tricéfalo, aumenta o conciliarismo.

A defrontação que daí resulta entre Eugênio IV e o concilio reunido em Basiléia, em 1431, gera nos papas o receio dos concílios. E uma das causas do atraso do Concilio de Trento, que, depois dos papas humanistas, mecenas, por vezes escandalosos, dos finais do século XV e do princípio do século XVI, provoca finalmente o acordar da Igreja, que se tornara urgente pela reforma protestante.

A autoridade do papa sai reforçada do Concílio de Trento. Apoiado pela Companhia de Jesus, colocada ao seu serviço, é o papa que promulga os decretos em 1564, interpreta-os pela congregação do concílio, legisla no campo do catecismo e da liturgia, desenvolve a instituição dos núncios.

Mas a partir da segunda metade do século XVII, os papas deparam-se com a independência dos Estados, que estendem a sua autoridade sobre o clero, depois, no século XVIII, com as novas idéias do Iluminismo e todas as alterações introduzidas pela revolução francesa.

Depois da morte de Pio VI - exilado em França - para muitos equivalia ao fim da instituição pontifícia. O prestígio do papado renasce com Pio VII (1800-1823), que consegue, pela concordata de 1801, que lhe seja reconhecida uma autoridade real sobre os episcopados nacionais, inaugurando assim o século, que assiste à ascendência do ultramontanismo e ao seu triunfo no Concílio Vaticano I, em 1870. No mesmo ano, a tomada de Roma marca o triunfo da unidade política da Itália que, desde 1859, vinha tirando do papa, progressivamente, todos os territórios. Até a assinatura dos acordos de Latrão, a 11 de fevereiro de 1929, os papas consideram-se então prisioneiros no Vaticano.

O Papado vai assumir, entretanto, uma dimensão internacional pelas intervenções na questão social (Rerum Novarum: 1891 e todas as encíclicas que assinalam o seu aniversário), pelas tomadas de posição nos conflitos mundiais, mesmo que a sua voz seja pouco escutada, pelo encorajamento dispensado aos movimentos da ação católica, pelas advertências a respeito das ideologias totalitárias (1937: "Divini Redemprorís" contra o comunismo ateu. "Mit brennender Sorge" contra o nazismo). O desaparecimento do seu papel de soberano temporal permite ao papado ser ouvido a nível de um humanismo universal, imbuído de fermento cristão, quando Paulo VI fala à ONU em 1965, e João Paulo II em 1979.

O Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII, confirma e alarga as primícias de uma evolução da Igreja vislumbrada desde 1940. Contribui também para renovar a imagem do papado, querendo-o mais forte, conforme a tradição: regresso à simplicidade evangélica, reforma da cúria para fazer dela um local de diálogo com as igrejas locais, prática da colegialidade episcopal, diálogo com as outras Igrejas para voltar a procurar a unidade cristã. Mesmo as viagens do Papa Paulo VI e de João Paulo II simbolizam o movimento missionário pelo mundo. No entanto, numa época em que os meios de comunicação desempenham papel tão considerável, tal fato pode voltar a concentrar no papa todas as expectativas da Igreja e representar um novo tipo de centralização.


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